Sobre o Livro
A experiência do Grupo Fantasia ganhou também as páginas dos livros. O livro "Grupo Fantasia: Esperança, Responsabilidade e Alegria", de autoria da educadora Ercília Maria Braga de Olinda, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Uma maneira de mostrar que, para além de denominações religiosas, valores como solidariedade e respeito à diversidade devem ser incentivados entre jovens e os responsáveis por sua formação.
O livro é fruto da pesquisa realizada pela educadora durante o pós-doutorado em Ciência da Religião, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Ela partiu do questionamento sobre como a experiência religiosa pode afetar, de forma proativa, a percepção do mundo. bem como as relações sociais dos jovens.
"Durante trabalhos com educação popular e professores de ensino religioso, percebi duas coisas. A primeira foi a necessidade que os jovens sentem de experiências religiosas. A segunda foi o fechamento de instituições, inclusive a universidade, para a manifestação dessas experiências. Outra coisa que notei é que, apesar do ensino religioso ser voltado para promover a diversidade, a maioria dos professores não sabe como fazer isso na prática", pontua a professora.
A partir dessas avaliações e do fato de que o desconhecimento e o preconceito são ainda maiores em relação ao universo mediúnico (como no caso do Espiritismo, da Umbanda e do Candomblé), Ercília Braga entrou em contato com o Grupo Fantasia e passou a observar, durante quatro meses, o trabalho realizado em abrigos e hospitais infantis.
"A atuação desse grupo me chamou a atenção pela continuidade do trabalho ao longo dos anos, a dedicação que eles têm para realizar as visitas e pelo fato deles não buscarem a divulgação ou a conversão das pessoas para a Doutrina Espírita. Eles se reconhecem como espíritas, trabalham em cima dos valores da doutrina, mas numa perspectiva ampla de atuar e fazer a diferença na vida do próximo".
Além do acompanhamento das visitas solidárias, a educadora trabalhou, na pesquisa, com as narrativas das experiências de cada um dos integrantes do grupo. No livro, os relatos tratam desde a trajetória de vida até a forma como eles atuam e são afetados pelo grupo. Baseada na metodologia dos círculos de cultura de Paulo Freire (1921-1997), Ercília Braga criou o círculo reflexivo da experiência religiosa.
O objetivo era, a partir dos relatos orais, escritos e até artísticos feitos pelos jovens, entender o significado e o potencial transformador da experiência religiosa. "Eles mesmos, depois que passaram do relato oral para o escrito, ficaram surpresos com o que disseram. A palavra vai muito além do que se diz. Expõe coisas para as quais nem sempre estamos atentos", observa.
Na avaliação da educadora, a experiência religiosa tem um papel fundamental na formação dos jovens, na relação com a sociedade e na promoção da tolerância com o outro. "Ao contrário da visão de que a religião pode alienar, esses jovens demonstram um profundo senso da realidade. Eles sabem que existem as injustiças sociais, a ausência de direitos. Mas acreditam que, mesmo pequenas ações, como a que eles fazem, têm um impacto importante. A doação não é vista por eles como um sacrifício, mas como uma oportunidade de crescimento", conclui.
Texto de autoria de KAROLINE VIANA em reportagem para o Diário do Nordeste
Sobre o Grupo
Domingo costuma ser o dia em que os jovens vão se divertir com os amigos, curtir uma praia ou sair para beber. Mas, há oito anos, o domingo de 14 jovens de Maracanaú é aproveitado de uma maneira bem diferente. É um dia em que, logo cedo, fazem uma oração e procuram passar a manhã sem ter sentimentos ruins.
Às 13 horas, com a ajuda de maquiagem, roupas coloridas e uma grande vontade de ajudar o próximo, eles se transformam nos palhaços e animadores do Grupo Fantasia.
Seja em hospitais, abrigos ou centros de reabilitação para portadores de deficiência, eles promovem visitas fraternas como forma de levar solidariedade e alegria para aqueles que precisam de motivos para sorrir. O Hospital Infantil Albert Sabin (Hias) e o Hospital de Maracanaú são alguns dos locais onde os jovens passam as tardes solidárias.
"Domingo é um dia muito especial para nós, por isso procuramos não ter raiva antes de ir para a visita porque a criança sente e queremos levar alegria e esperança?, relata a professora de Artes, Lívia da Silva Sousa, 27 anos, que participa do grupo desde a formação inicial dos participantes.
Valores cristãos
Em comum, os jovens seguem a Doutrina Espírita e não se importam de trocar as folgas semanais pelo trabalho junto às crianças e aos adolescentes.
"Apesar de sermos espíritas, nosso objetivo não é fazer divulgação da doutrina. Acreditamos que, independente da religião, valores como a amizade, a solidariedade e o amor devem ser partilhados com todos. Outra coisa que fazemos questão é de não pedir apoio. Não fazemos animação de festas, não participamos de evento político e só, ocasionalmente, fazemos a venda de nossas camisetas, em eventos especiais. Tudo é custeado por nós e somos felizes com essa forma simples de atuar?, explica a professora Lívia Sousa.
Para atuar junto a crianças com necessidades especiais, eles aprenderam a Linguagem Brasileira de Sinais (Libras) para se comunicar e levam material adaptado. Outra regra, importante para o Grupo Fantasia, é respeitar as rotinas e as regras de cada instituição.
"Nós estudamos as condutas de cada local que visitamos, principalmente nos hospitais. Procuramos preservar as condições de saúde das crianças e respeitar os pais que acompanham. Mas sempre somos muito bem recebidos pelas equipes médicas, pelos acompanhantes e pelas crianças?, conta Lívia.
Alegria e doçura
No cotidiano das visitas, eles se deparam com realidades duras, como crianças abandonadas pelos pais ou sofrendo de doenças como câncer. E é com canções, alegria e doçura que eles procuram fazer o bem ao próximo. Lívia relata já ter passado por experiências felizes e tristes durante os oito anos de atuação do Grupo.
"Posso dizer que é um trabalho difícil por conta da realidade que encaramos, mas, ao mesmo tempo, recompensador. Uma vez, a mãe de um paciente em estado terminal pediu que entrássemos na Unidade de Terapia de Urgência (UTU), o que é proibido por conta da gravidade dos casos. Era um menino de nove anos que estava com câncer. Não podíamos levar o violão para dentro da unidade, mas cantamos para ele. Fazia uma semana que ele não reagia, mas enquanto cantávamos ele abriu os olhos, soltou um beijo e adormeceu. O menino faleceu meia hora depois e todos ficaram muito emocionados?, lembra a professora Lívia.
Além dos domingos, as visitas solidárias são feitas em feriados e festas, como a Páscoa, o Dia da Criança e o Natal. Durante a semana, eles fazem um planejamento minucioso dos temas a serem tratados em cada vista. Num domingo eles fazem contação de histórias. Em outro, eles podem abordar a saúde. Já na programação seguinte, divertir as crianças com esculturas feitas com bexigas.
A meta dos jovens animadores é trazer sempre novidades e atividades diferenciadas para os meninos e meninas atendidos. E eles vão seguindo no trabalho voluntário, vendo esses domingos não como dias perdidos, mas sim, como dias em que puderam ser melhores e mais solidários com o outro.
REFERÊNCIA
8 anos de atuação fazem do Grupo Fantasia uma referência, no Estado, em trabalho voluntário voltado para crianças e adolescentes internadas em hospitais ou que moram em abrigos.
Texto de autoria de KAROLINE VIANA em reportagem para o Diário do Nordeste